DESFILES DE MODA – QUAL É A VERDADEIRA IMPORTÂNCIA?

Em uma era em que uma notícia chega, impacta a vida de milhões de pessoas, entra em todas as rodas de conversa e uma semana depois desaparece, é difícil continuar sendo relevante.

Hoje é relativamente fácil se fazer ser ouvido mas é também mais difícil consolidar sua voz e trazer um conteúdo que não seja efêmero, no sentido pejorativo da palavra. Com um clique nos transportamos de universos. É surpreendente como podemos mergulhar intensamente em uma experiência por meio de stories do Instagram ou vídeos no YouTube e no segundo seguinte nos desconectar daquelas pessoas, marcas e lugares.

A demanda pelo personalizado nunca foi tão grande. Hoje o público prefere ouvir de uma blogueira com ar de “girl next door” do que de uma super celebridade, dona de padrões inatingíveis. As próprias Kardashians, apesar de sugerir uma distância, seja pelo dinheiro ou pelo padrão de vida, nos parecem próximas porque temos acesso a quase todos os momentos de suas vidas. As redes sociais hoje são uma porta de entrada para a vida dessas personalidades e mudaram o jeito que nos relacionamos, tanto com pessoas que vemos todos os dias como com marcas e figuras públicas.  

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Esse impacto não é apenas referente aos relacionamentos, mas como consumimos e absorvemos conteúdo. Quanto mais próximos e incluídos nos sentimos, mais as chances de criarmos afeto diante de algo ou alguém, e felizmente (?), sentimentos ainda são um pouco mais duradouros do que os cliques que damos em nossos smartphones. Tendo tudo isso não só em mente, como presente no meu dia a dia, comecei a refletir sobre o modelo que as marcas de luxo usam para apresentar suas novas coleções.

A ideia de um desfile começou a se desenvolver em Nova York, na época de 1903 e tinha como público as clientes de classe média. Antes disso, em Paris, já haviam marcas que exibiam seus mais novos modelitos em salões de beleza e eventos da high society para maior visibilidade. Demoraram 40 anos até que a primeira Semana de Moda acontecesse, e hoje, 75 anos depois é difícil encontrar um feed do Instagram que fique isento de receber pelo menos algumas imagens relacionadas às Fashion Weeks durante suas temporadas.  

Contudo, a primeira Semana de Moda foi criada a partir de uma necessidade. Devido a Segunda Guerra Mundial as marcas precisavam oferecer uma alternativa aos compradores: havia se tornado muito mais difícil viajar até Paris, e hoje me parece muito mais uma tradição do que de fato algo relevante.

Existe realmente a necessidade de se mostrar e divulgar novas coleções, mas do que adianta armar um circo exclusivíssimo que não chega até a maioria das pessoas de forma realmente impactante?

A necessidade de mercado hoje é completamente diferente do que há 75 anos atrás. Passamos por transformações tão intensas, temos tantas possibilidades animadoras de revitalização da experiência de desfiles, e mesmo assim parece que alguns costumes permaneceram parados no tempo.

Hoje não basta usar o espaço da Bienal ou construir um grande mercado no Grand Palais. Podemos criar experiências refrescantes, inovadoras ou releituras de uma série de eventos que podem impactar o mundo todo de maneira muito mais divertida e eficaz se nos abrirmos para o diferente, o novo, o ousado. Algumas pessoas parecem enxergar como não se pode mais dançar no mesmo ritmo quando a música mudou drasticamente, e com isso surgiram ideias novas e estimulantes, como a parceria de designers com modelos que além de tudo são célebres it girls, mas isso ainda não me parece suficiente.

Um desfile pode ser um statement, pode representar ideais, transmitir ideais, chacoalhar pensamentos acomodados. Pode ser uma verdadeira performance artística, como sempre vejo no DNA das apresentações do Ronaldo Fraga – sério, respeito total pelo senso de realidade que ele deu pro evento nos lembrando sobre a tragédia que houve em Mariana.

Mas também pode ser um evento divertido que nos recordem que a criatividade mora ao lado. Ideias como o desfile-não-desfile da Diane von Furstenberg no Inverno de 2016 são o tipo de experiência adequada para o tempo que vivemos. Imagine escalar um time de modelos que também representem a cara da marca ou o mood da coleção, mas não para desfilar, e sim, para dançar! Parece até com o que os parisienses fizeram lá no começo, não é? Pois às vezes as ideias simples (ou a reinvenção delas) são tudo que precisamos. Uma imensa celebração na loja nova iorquina da designer foi o evento criado para divulgar a coleção. E tudo isso dentro do conceito see now, buy now (a possibilidade de comprar uma peça da coleção que acabou de ser desfilada) – mais conhecido como a salvação da moda na geração ansiedade. Com esse tipo de visão o público tende a se aproximar desse universo distante.

Uma tendência só é democratizada depois que uma personalidade mais “acessível” faz posts didáticos sobre ela. Maisons ainda não têm uma linha de comunicação com possíveis clientes. O consumo mudou. A forma de se relacionar com um cliente mudou. A maneira como as tendências se alastram é também completamente diferente, e mesmo assim a High Fashion foi muito relutante até mesmo em deixar o Street Style entrar.

Por que será que é tão difícil democratizar a moda, se até a informação já deu mil passos pra frente?

Diferente do que algumas pessoas pensam, Miranda Priestly já explicou pra gente como as decisões de Oscar de la Renta e Anna Wintour realmente afetam o que iremos usar poucos meses depois. E se há pouco tempo era improvável que alguém periférico tivesse interesse em acompanhar os últimos lançamentos da Gucci, hoje vemos milhares de frequentadores de bailes com bonés ostentando o logo da marca. Então por que ainda insistimos em traçar uma linha entre quem pode usar certa roupa e quem não? Quem pode acompanhar um desfile e quem não?

Texto por: Julia Cortez

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